Quando estávamos na van a caminho de Junín de los Andes Pablo, o nosso guia, nos perguntou como nós imaginávamos uma montanha. Dentro da van estavam 2 argentinas de Buenos Aires, 1 francês, 1 estadunidense e 1 inglês além de nós duas brasileiras. Como exemplo ele pediu que a Núria desse a visão dela de uma montanha, e a primeira coisa que ela disse é que ela era verde e abaulada. Todos os demais imaginavam um vulcão cônico e com neve no topo. Pois, é. Enquanto eles conheceram seu ideal de montanha nós conhecemos algo inpensável para nós. Sim, eu sei que depois de ter sentido um terremoto ir ver um vulcão não é lá algo do mais seguro que se faça. Mas como chance de morrer é algo bem difícil de calcular e, principalmente, como o Lanín não entra em erupção desde 1776, eu acho que nem foi tão perigoso assim!
Nossa primeira parada foi em Junín de los Andes. Primeiro povoado da província de Neuquén, é "argentinamente" conhecido pela pesca, principalmente da truta, e por ter sido o local onde viveu uma das duas beatas da Argentina, Laura. É um local também de grande influência da comunidade mapuche. E esses dois extremos - o cristianismo e a religião mapuche - demonstram não ser opostos nessa cidade. A Igreja católica de Junín é a prova disso: sua cruz no ápice da torre principal tem um círculo e 4 demarcações que denotam ao universo mapuche, sendo uma a água, a outra o fogo, a terra e o ar. Toda essa simbologia também está representada nas janelas e no altar, onde há uma luz ilumina a água que cai na pedra - terra (o ar não foi representado pois está em todo o lugar). O cristo tem feições nitidamente mapuches, usa uma túnica mapuche e está saindo na cruz, como que ressucitado e de braços abertos para os fiéis que chegam. Ao longo das paredes há pinturas que contam a história de Laura e embaixo panos mapuches com traçados que levam ao altar. A própria estátua da Laura, que está no santuário, é a representação de Maria com a menina em cima da Lua, uma deusa mapuche. E quando perguntado como isso pôde acontecer, Pablo disse que a Igreja é nova -tem cerca de 70 anos - e que está localizada em um lugar muito longe dos olhares do Vaticano. Apesar dessa mescla, ela não é muito bem aceita por todos da cidade, sendo que alguns fiéis não aceitam rezar diante do cristo com feições mapuche e se dirigem ao santuário, onde está a estátua de um Jesus padrão. O interessante é que, talvez pela busca cada vez maior pela identidade em uma cidade turística em um mundo globalizado, a religião mapuche vem crescendo atualmente na cidade.
Como segunda parada, aproveitando o dia de Sol forte, fomos para o Lago Huechuelafquen (demorei 3 dias pra conseguir falar esse nome certo!). Como primeira interpretação, huechuelafquen quer dizer "lago que acaba na ponta", pois seu fim dá-se em uma pedra chamada de pedra da ponta. A outra também aceita é de "lago que termina em ponta", pois o seu fim se dá em um rio, o Chumehui. A lenda mapuche sobre a criação desse lago, e dos demais da região, começa com o pai Sol, a mãe Lua e seus filhos Estrelas. Um dia dois de seus filhos Estrelas, que eram impedidos de vir a Terra, desobedeceram seu pai Sol. Ele, ao descobrir a atitude de seus filhos ficou com muita raiva e os jogou contra a Terra. Assim formou a Cordilheira dos Andes. Sua mãe Lua, ao perceber o que tinha ocorrido, começou a chorar e suas lágrimas deram origem aos lagos dessa região.
A primeira vista para o Vulcão de pertinho. Ele ainda não parecia tão grande, mas não deixava de ser majestoso! O lago Huechuelafquen foi resultado do derretimento de glaciares, mas como ele correu para uma zona plana, sem subir muito é possível avistar todo o lago e o vulcão ao fundo. Que era belo não precisa nem dizer, né! E que era gelado também! Eu, devido a minha origem tropical, fui poupada de um banho nessas águas que se apresentaram bem familiares para muito dos demais alí presente, principalmente o inglês, que foi o que conseguiu permanecer mais tempo na água com ela acima do umbigo: 10 minutos! Comemos e conversamos um pouco, cada um conhecendo um pouco do mundo do outro.
A terceira parada foi em uma comunidade mapuche. Lá conversamos com o Seu Antônio, sua família e seus visitantes. Ele estava fazendo artesanato. Como primeiro assunto, o terremoto! Os mapuches são um povo originário do Chile que com o povoamento da sua região originária acabaram se deslocando cada vez mais pro sul até que decidiram ir para o outro lado dos Andes. Lá conquistaram o território de um povo conhecido pela sua grande altura e pacificidade. Antes eles eram politeístas, tendo como principais deuses o Sol e a Lua. Com o tempo e o contato com outros povos se tornaram monoteístas. Hoje acreditam que o coração de Deus está no vulcão Lanín, sendo essa montanha sagrada para eles. Não conseguem entender o motivo pelo qual as pessoas o escalam. Na verdade são até contra, pois acham que o piquete da escalada machucaria o vulcão que um dia ficaria com raiva e entraria em erupção, uma erupção tão forte que arrasaria com toda a região chegando longe, quizá na própria capital argentina. Seu grupo é patrilinear, mas atualmente há uma certa flexibilidade quanto a isso. A terra onde está situada a comunidade não pertence ao município de Junín e sim a comunidade, que possui um governo próprio que muda de tempos em tempos através de votação. O interessante é que em poucos minutos de conversa já foi dito que o governo de lá é corrupto como o nosso. Lógico que em menor escala. A apatia política procedente da desconfiança também existe entre os mapuches que veem como a mudança de governo a mudança de quem enriquece.
Última parada: Bosque de Araucárias. No Parque Nacional Vulcão Lanín está situado o único bosque de araucárias do mundo, tendo sido esse o motivo para a criação do parque. Além das curiosidades dessa planta que conseguiu se adaptar ao clima desértico e ao solo cheio de cinzas da base do vulcão, o interessante dessa parada foi a proximidade do Lanín, que nos faz sentir menores que a sua cinza. Uma visão magnífica, ainda mais que o Sol já se punha e o céu se enchia de cores (já era mais de 8 da noite, horário de Brasília). Para brindar ainda mais esse dia espetacular, nasceu a Lua, primeiro tímida entre as núvens, depois oposta ao vulcão e disputando com ela em elegância e imponência.
Tipo, eu escrevi um comentário ENORME e qdo fui postar, deu pau.
ResponderExcluirOk.
Agora fiquei com preguiça de escrever tudo de novo, então dona Amelie, eu quero que a Sra. escreva SEMPRE aqui pra gente ter notícias, tá? É muito bom ler e saber o que tá acontecendo por essas bandas latinas!
Bjocas!
Clara
meo Deuss
ResponderExcluirquanta coisaa!
fico lendo e imaginando as coisas..
que trabalho vc me dá!
hsauhsuahsuahs
mas vulcões me lembram a Shirley de geografia..
nao podia deixar de comentar! hehe ;P
saudades de tii
continue aproveitando ai
bjooos
Aline
Essa igreja deve ser maravilhosa!!!!
ResponderExcluirSaudades, Bah...
;D
Ívna