11 abril 2010

Uma viagem santa!



Tudo começou com a lembrança de que a Páscoa estava chegando. Não por motivo cristão, mas porque ia ser o maior feriado do intercâmbio. Conversando com Ana, uma espanhola que também está fazendo intercâmbio, mas não mora na RAE, ela disse que com os nossos preciosos 10 dias podíamos conhecer o Noroeste da Argentina. Indicou Salta como cidade principal e povoados cerca de lá, no caminho pra Jujuy. Até que um dia Luiza me sugeriu: "O quê que você acha da gente ir pra Salta e depois pro Salar de Uyuni, na Bolívia?!". Não havia como dizer não. Era um dos lugares que eu sonhava conhecer, não desde menina porque não tinha idéia de que essa região existia, mas depois de grande, quando o mundo também cresceu pra mim.

Saímos de Santa Fe sexta de noite. O grupo: Luiza, Maria, Lucero, Marcos, Thiago e eu. Chegamos lá pelas 13 da tarde em Salta. Depois de descobrirmos qual era o hostel fomos pra lá. Salta já começou a se revelar como no slogan "Salta: la linda". De tarde fomos ao Museo de Arqueología de Alta Montaña, onde há a descrição de um culto inca feito no alto das montañas, onde estava localizado os "Adoratorios de Altura". O que dá a esse museu um toque particular é os corpos de 2 crianças que eles conseguiram recuperar e conservar para exposição. Depois fomos ao Cerro San Cristóbal(ou San Bernardo!), de teleférico, de onde dá pra ver a cidade de Salta toda! Voltamos ao anoitecer, até porque começou a chover!!

No dia seguinte fomos a Cachi. No povoado em si ficamos só meia hora, mas o belo do passeio foram as paradas no caminho! A paisagem ia se modificando aos poucos, das florestas úmidas das montanhas que me recordavam o caminho de Belo Horizonte a Timóteo a paisagem árida, marrom e vermelha, típica do Noroeste argentino. Nossa primeira parada nas alturas foi na Encuesta del Obispo, primeiramente a 3000 e depois subindo mais uns 600 metros, onde descobrimos que a tarefa de tirar fotos pulando pra Bettina ia ser mais cansativa do que se imaginava! Passamos pela Piedra del Molino, onde há uma pedra (oh!!) e uma Igreja (3348m). A história foi que estavam levando essa pedra pra uma cidade próxima e ela caiu e ninguém conseguiu tirar ela de lá! Só me pergunto se a Igrejinha veio antes ou depois da pedra... Logo depois, quando a paisagem cheia de cactus se aproximava e povoava mais ainda nossa janela, chegamos no Parque Nacional de los Cardones. Cardones é cactus em espanhol. Na realidade um tipo específico de cactus, os quais crescem 2 centímetros por ano. A parada para ver os cactus foi na Ruta del Tin Tin, uma reta 18 feita lá pelos anos de 1400 d.c. (época da chegada inca a Argentina) pelos incas, e é supreendentemente perfeitamente reta!! Chegamos em Salta lá pelas 6 da tarde e fomos comer algo, descansar um pouco no hostel e a meia-noite pegamos o bus pra La Quiaca, cidade argentina na fronteira com a Bolívia. Já na rodoviária começamos a perceber algo que seria constante no resto da viagem: a divisão entre turistas e nativos, nesse caso bolivianos. Haviam dois ônibus no mesmo horário, em que um no bagageiro mochilões (mochilas grandes) e outro malas comuns.

Chegamos em La Quiaca pela manhã e fomos atravessar a fronteira. Tudo tranquilo, entramos em solo boliviano e fomos trocar dinheiro e depois sacar mais uns no caixa eletrônico, algo que depois descobrimos que era raro aqui na Bolívia! Chegando na rodoviária tivemos o nosso primeiro confronto de culturas: vencendo todas as vozes que gritavam "Potosi Potosi!" "La Paz, Cochabamba!" "Oruro, Oruro", descobrimos que não havia mais ônibus pra Uyuni, só no final da tarde ou trem. Todos chegavam em Uyuni na terça, de madrugada ou pela manhã. Então alguém nos sugeriu ir pra Tupiza ao invés de Uyuni, pois aparentemente havia ônibus mais frequentes de Tupiza a Uyuni. Então fomos comprar passagem pra Tupiza. Chegando no guichê, indo pagar, chega o dono da empresa e diz pra vendedora não vender passagem pra gente. Choque. Como assim não vender a passagem!? Mais tarde um outro moço foi explicar que o ônibus ia até La Paz e Tupiza fica a 2:30 de Villazón, ou seja, ele ia sair perdendo se vendesse pra gente pois andaríamos muito pouco no bus. Então fomos esperar o senhor vender pra gente (a vendedora falou que 10:30 vendia pra gente e era 9:30). Marcos, Lucero e eu fomos comprar comida, que eram empanadas (na falta de coxinha de frango com catupiry!)uva e mexirica. Todos comendo felizes, elogiando as empanadas, e de repente aparece um cachorro e Luiza e se eu bióloga se compadece tanto com o coitado do animalzinho que dá metade da sua empanada pra ele. Depois que todos comeram e elogiaram e empanada, Luiza foi contar que havia encontrado um fio de cabelo enorme na empanada, mas não queria falar nada pois todos estavam felizes comendo-las que quando viu o cachorro achou a solução para os seus problemas! Enfim, depois de nos deliciarmos com as frutas, que estavam incrivelmente doces, Marcos, na sua contínua indignação pelo fato de não ter podido comprar a passagem e na sua eterna procura pelos bilhetes, conseguiu que um cara fretasse um ônibus pra Tupiza 11:30. Fomos felizes para Tupiza, mesmo que com grandes chances de ficarmos parados em algum lugar do caminho pra colar alguma coisa que soltou do ônibus (entenda que quebrar era algo meio difícil de acontecer...). O que me impressionou no trajeto, além, claro, da paisagem "surreal" (como diria meu amigo Thales!) foi a quantidade de obras e de policiais na estrada. Os policiais assustavam um pouco por vestirem verde. Demorou um pouco pra eu conseguir ler o que estava escrito na farda e tirar da minha cabeça que aquilo era o exército.

Chegamos em Tupiza, fomos pro hostel e descobrimos (não tanto descobrimos, mas a Luiza lembrou que um israelense que a gente tava conversando no hostel em Salta, antes de ir pra La Quiaca, havia dito que...) era possível fazer a rota do Salar de Uyuni a partir de Tupiza. Então fomos nós pesquisar os preços e comer. Depois comprar "gorritos" e meias de lã pra enfrentar o frio do Salar. A noite, depois de um vinho boliviano, fomos dormir com muitas expectativas para a rota que começaria no dia seguinte!

Bem, o primeiro dia foi o que mais ficamos no carro, um jeep 4X4 (é beeeem complexo fazer esse trajeto sem ser numa 4X4) em que estavam nós seis mais Benjamim, o chofer e guia, e Marisol, a cozinheira. A primeira parada foi na Quebrada de Palala (3700m) (Quebrada é um lugar onde há montanhas e um rio que passa por baixo), um lugar muito lindo, onde a montanha era furada por cortes psicodélicos. A estrada era bem estreita, e mais exatamente, com projeção a um a abismo. O primeiro momento tenso da viagem se deu ainda com a memória desses desenhos "psicodelísticos": estávamos nós, felizes e cantantes, quando avistamos um caminhão que carregava minério vinda na direção contrária a nossa. Tensão ao passar no carro da frente. Depois ao passar pelo nosso. Eu, pra ajudar, estava do lado do motorista, que estava encostado no barranco de terra enquando o caminhão se equilibrava pra passa ainda na pista. Mas, deu tudo certo!! =D Paramos em San Pablo de Lipes (4430m), onde vimos um cachorrinho e umas menininhas muito lindas e ficamos brincando com elas até termos que voltar. Dormimos no povoado de San Antonio de Lipes (4200m), onde comemoramos o aniversário do Marcos com mais vinho boliviano e na companhia de 2 uruguaios, 1 brasileiro (brasiguaio) e 2 holandesas, todos "muy buena onda" (gente boa) que conhecemos no alojamento. No caminho e quando chegamos no povoado nevou! Até porque estava fazendo 5° abaixo de 0 (Biel, agora eu te compreendo melhor em relação a sua situação aí!!).

No segundo dia do Salar acordamos as 4:30 da manhã e saímos ainda de noite, as 5:30, ao som de Tim Maia. Vimos o Sol nascer entre as montanhas e a Lua não querer ir embora, nos acompanhando até as 8 da manhã. Fomos a um povoado fantasma (4700m), que só se tornou fantasma a 17 anos atrás, quando a população que lá vivia se cansou de ser atormentada por espíritos e fantasmas dos escravos que haviam sido explorados pelos espanhóis por vários anos. Depois avistamos a primeira de muitas lagunas que íamos ver pelo caminho: a Laguna Morejón (4855m). A grande maioria das lagunas é branca pelo bórax, um polímero/mineral que é utilizado para a produção de artigos de plástico e de higiene, como o detergente. O pneu furou. O interessante foi perceber nesse momento a grande solidariedade que existe entre os choferes que são responsáveis pelos viajantes. Todos os demais carros ajudaram a trocar o pneu quando paramos perto de um lugar chamado de “vaquedales”, onde pastos verdes surgem da água (4830m). Fomos ás águas termais e lá, as 3 únicas brasileiras, mais uma mexicana cada dia mais abrasileirada, nadamos com shorts e camiseta, porque não levamos roupa de banho pois tínhamos como previsão pegar bastante frio na viagem. Depois do almoço uma das mais belas visões da viagem: a Laguna Verde! Sua cor é impressionante, mas fica ainda mais devido a seu mistério, ela se revela para que a busca na base de um vulcão cujo nome não faço a mínima idéia. Depois, outra visão impressionante, mesmo de longe: o Deserto de Dalí. As formas e as cores me marcaram profundamente, devido a seu equilíbrio delicado de tons avermelhados. A parada seguinte foi os gêiseres. Parada dentro do carro, pois histórias como a da israelense que pisou em falso e queimou o pé nos chamarizes de mais de 90°c nos amedrontaram. Na verdade, o que mais me incomodou foi o cheiro, insuportável! O final do dia se deu num alojamento a beira da Laguna Colorada.

O terceiro dia começou na beira da Laguna Colorada, vermelha do reflexo das montanhas a sua volta, da pelugem dos flamingos e de algas, vermelhas! Depois fomos a um lugar onde havia várias formações rochosas, das quais uma em especial tinha um formato de árvore. Depois de escaladas em altitude, em que eu preservei a minha vida apenas fotografando o feito e a bandeira do Brasil, fomos a um lugar onde podíamos avistar um vulcão semi-ativo. Por um instante me perguntei o que seria um vulcão semi-ativo, mas preferi não buscar a resposta, até porque parte dela eu já via no horizonte, esfumaçadas e de cor branca. Em seguida fomos a uma região em que havia 5 lagoas, uma depois da outra. Todas com regiões brancas (o mistério do bórax!) mas também transparente e refletindo as montanhas a sua volta. Almoçamos isolados, em uma planície fantástica, na companhia de uma vizcacha, uma espécie de coelho com o rabo enorme que habita a região. Depois começamos o longo trajeto até chegarmos cerca do que é propriamente o Salar de Uyuni, dormindo em um vilarejo em que já se podia avistar uma faixa branca no horizonte.

Último e memorável dia. Começamos bem cedo, antes do sol nascer. Rapidamente o caminho cinza escuro se tornou branco. Paramos para ver o sol nascer. O frio era bastante forte, fazendo com que esperássemos mais ansiosamente ainda o sol aparecer no horizonte, completo. Uma visão inesquecível por tão espetacular. Depois seguimos para a Isla Incahuasi (A morada do Inca), ou simplesmente Isla Del Pescado, devido ao seu formato. É uma ilha cheia de cactus, alguns com mais de 1000 anos. Lá tomamos o café-da-manhã, vendo um avestruz correndo de várias pessoas. Logo fomos a um lugar para tirar aquelas fotos psicodélicas que todo mundo que vai pro Salar tira, a melhor oportunidade pra você pisar em um amigo ou literalmente (não tanto assim...) ter alguém em sua mão. A última parada foi no Hotel de Sal, que atualmente funciona como museu do Sal, com algumas esculturas e a preservação do que antigamente foi um hotel mas que foi interditado pelas autoridades sanitárias. Depois, já fora do Salar, chegamos a Colchani, onde incrivelmente encontramos com a Paulinha (da UFMG) e um grupo de brasileiros (e um mexicano) que tão fazendo intercâmbio em Tucumán!! Mundo pequeno esse! Depois de lá, fomos para Uyuni. Era sexta-feira santa. Chegando lá não tinha gasolina pra voltar pra Tupiza, nem caixa eletrônico funcionando ou casa de câmbio pra gente trocar os pesos argentinos pra pagar o restante da excursão. Benjamin conseguiu uns litros até Atocha, cidade mais perto, onde conseguimos o restante da gasolina pra chegar a Tupiza. Pagamos em pesos argentinos e depois fomos dar notícias à família e comer. Esperamos na sala do hostel até as 3:30, quando fomos pra rodoviária pegar o bus das 4 pra Villazón. Chegamos lá pela manhã e depois de comprar algumas coisas pra comer e artesanatos fomos pra fronteira. A fila da Bolívia estava grande, mas depois a gente foi descobrir que a da Argentina era mais demorada! Na fila encontramos de novo com a Paulinha e a sua turma. Depois dos guardas argentinos demorarem pra devolver os passaportes meu, da Lucero e da Paulinha, e da Maria quase ser má interpretada quando brincava com seu pacotinho de sal do lado dos guardas argentinos, fomos quase correndo pra rodoviária. Lá conseguimos uma passagem pra Jujuy com conexão pra Rafaela, que é a duas horas de Santa Fe. Chegamos aqui, como quem chega em casa, umas 11 da manhã de domingo, famintos, sujos, cansados, mas felizes!

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